Dicas profissionais
Vou explicar os números. O FGTS rende 3% ao ano + TR (Taxa Referencial). A TR hoje é praticamente zero — ficou negativa em alguns meses de 2023. Então, na prática, o FGTS rende 3% ao ano bruto. Descontando o imposto de renda de 15% sobre os rendimentos, o líquido cai para 2,55% ao ano. A inflação oficial (IPCA) nos últimos 12 meses foi de 4,62%. Em 2022, foi 5,79%. Em 2021, 10,06%. Fazendo a conta: o FGTS rende 2,55% e a inflação corrói 4,62%. Perda real de 2,07% ao ano. Em seis anos, acumula uma perda de 11,8% do poder de compra.
Eu fui conferir. Meu primeiro emprego CLT começou em julho de 2017, ganhando R$ 3.500. O depósito mensal do FGTS era 8% — R$ 280. Ao longo de seis anos, com aumentos e uma promoção, depositei R$ 47.800 no fundo. Os rendimentos foram R$ 3.240 bruto, R$ 2.754 líquido. Saldo total: R$ 50.554. Parece uma grana boa. Mas aqueles R$ 47.800 que entrearam em 2017 valiam muito mais do que R$ 50.554 valem hoje. Em julho de 2017, R$ 47.800 compravam 15.933 litros de leite integral (a R$ 3,00). Em março de 2024, R$ 50.554 compram 12.371 litros (a R$ 4,09). Perdi 3.562 litros de leite em poder de compra. O dinheiro encolheu 22%.
Comparei com a poupança, que todo mundo diz que é ruim. A poupança rende 70% da Selic + TR quando a Selic está acima de 8,5%. Com Selic a 13,75%, a poupança rende 9,63% ao ano + TR, isenta de IR. Líquido de quase 10% ao ano. O dobro do FGTS. Se eu tivesse recebido os R$ 47.800 na poupança ao invés do FGTS, teria R$ 62.100 hoje. Diferença de R$ 11.546. É quase um salário inteiro perdido por uma obrigação legal que eu não escolhi.
Mas calma, o FGTS tem vantagens. Ele é garantido pelo Tesouro Nacional — não tem risco de default. Tem aniversário: o trabalhador pode sacar uma parte todo ano se quiser. E serve para compra de imóvel, que é o sonho de muita gente. O problema é que essas vantagens não compensam a perda real acumulada. Se você não for demitido e não for comprar imóvel, o FGTS é uma bomba-relógio financeira silenciosa.
Fui falar com um colega que trabalha no Banco do Brasil. Ele me explicou que o governo usa o FGTS como fonte de financiamento. O dinheiro do trabalhador empresta para o governo a 3%, e o governo empresta para habitação popular a taxas subsidiadas. A diferença é o custo do subsídio habitacional. Em termos simples: o trabalhador bancou o programa habitacional do governo com o bolso dele, sem saber. É um imposto invisível.
O saque-aniversário mudou o jogo para muita gente. Desde 2020, você pode sacar uma parte do saldo todo ano no mês do seu aniversário. A alíquota varia de 5% (saldo até R$ 500) a 50% (saldo acima de R$ 20.001). Eu tenho R$ 50.554, posso sacar 50% = R$ 25.277. Se investir isso no Tesouro Selic, rendo 13,75% ao ano = R$ 3.476 líquidos. No FGTS, os mesmos R$ 25.277 renderiam R$ 645 líquidos. A diferença é absurda: R$ 2.831 por ano a mais no Tesouro Selic.
Mas tem a multa. Se você for demitido sem justa causa, perde o direito de sacar o saldo integral. No saque-aniversário, a multa rescisória de 40% sobre o saldo do FGTS vai para você, mas o saldo principal continua lá. Eu fiz as contas: se for demitido com saldo de R$ 50.554, recebo a multa de R$ 20.222 + o saldo de R$ 50.554 = R$ 70.776. No saque-aniversário, recebo a multa de R$ 20.222 + já saquei R$ 25.277 durante o ano = R$ 45.499. O saldo remanescente no FGTS (R$ 25.277) fica travado. Então a rescisão sem saque-aniversário paga mais. A diferença é R$ 25.277. É um seguro contra demissão que custa caro.
Minha decisão? Ativei o saque-aniversário e vou sacar anualmente para investir no Tesouro Selic. A perda potencial na rescisão dói, mas a perda real pela inflação dói mais. E é garantida. Com o saque-aniversário + investimento em Selic, compenso a inflação e ainda construo uma reserva de emergência de verdade. Sem contar que o saque-aniversário permite que eu use o dinheiro como quiser — inclusive como entrada para imóvel, se eu decidir comprar um dia.