FGTS: meu dinheiro rendendo menos que a poupança

Descobri que o Fundo de Garantia que deveria me proteger está sendo devorado pela inflação — e você provavelmente está na mesma situação

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1320 palavras
01/04/2026
Aviso: não sou contra o FGTS. Acho a ideia genial — um fundo de reserva para o trabalhador em caso de demissão, doença grave ou compra da casa própria. O problema é o rendimento. Quando olhei meu extrato do FGTS em março de 2024, senti um soco no estômago. Seis anos de trabalho CLT, R$ 47.800 acumulados. Juros rendidos? R$ 3.240. Parece bom? Não quando você descobre que a inflação acumulada no mesmo período comeu R$ 18.900 do poder de compra desse dinheiro. Meu FGTS perdeu R$ 15.660 em valor real. Isso dói.

Como usar

Dicas profissionais

Vou explicar os números. O FGTS rende 3% ao ano + TR (Taxa Referencial). A TR hoje é praticamente zero — ficou negativa em alguns meses de 2023. Então, na prática, o FGTS rende 3% ao ano bruto. Descontando o imposto de renda de 15% sobre os rendimentos, o líquido cai para 2,55% ao ano. A inflação oficial (IPCA) nos últimos 12 meses foi de 4,62%. Em 2022, foi 5,79%. Em 2021, 10,06%. Fazendo a conta: o FGTS rende 2,55% e a inflação corrói 4,62%. Perda real de 2,07% ao ano. Em seis anos, acumula uma perda de 11,8% do poder de compra. Eu fui conferir. Meu primeiro emprego CLT começou em julho de 2017, ganhando R$ 3.500. O depósito mensal do FGTS era 8% — R$ 280. Ao longo de seis anos, com aumentos e uma promoção, depositei R$ 47.800 no fundo. Os rendimentos foram R$ 3.240 bruto, R$ 2.754 líquido. Saldo total: R$ 50.554. Parece uma grana boa. Mas aqueles R$ 47.800 que entrearam em 2017 valiam muito mais do que R$ 50.554 valem hoje. Em julho de 2017, R$ 47.800 compravam 15.933 litros de leite integral (a R$ 3,00). Em março de 2024, R$ 50.554 compram 12.371 litros (a R$ 4,09). Perdi 3.562 litros de leite em poder de compra. O dinheiro encolheu 22%. Comparei com a poupança, que todo mundo diz que é ruim. A poupança rende 70% da Selic + TR quando a Selic está acima de 8,5%. Com Selic a 13,75%, a poupança rende 9,63% ao ano + TR, isenta de IR. Líquido de quase 10% ao ano. O dobro do FGTS. Se eu tivesse recebido os R$ 47.800 na poupança ao invés do FGTS, teria R$ 62.100 hoje. Diferença de R$ 11.546. É quase um salário inteiro perdido por uma obrigação legal que eu não escolhi. Mas calma, o FGTS tem vantagens. Ele é garantido pelo Tesouro Nacional — não tem risco de default. Tem aniversário: o trabalhador pode sacar uma parte todo ano se quiser. E serve para compra de imóvel, que é o sonho de muita gente. O problema é que essas vantagens não compensam a perda real acumulada. Se você não for demitido e não for comprar imóvel, o FGTS é uma bomba-relógio financeira silenciosa. Fui falar com um colega que trabalha no Banco do Brasil. Ele me explicou que o governo usa o FGTS como fonte de financiamento. O dinheiro do trabalhador empresta para o governo a 3%, e o governo empresta para habitação popular a taxas subsidiadas. A diferença é o custo do subsídio habitacional. Em termos simples: o trabalhador bancou o programa habitacional do governo com o bolso dele, sem saber. É um imposto invisível. O saque-aniversário mudou o jogo para muita gente. Desde 2020, você pode sacar uma parte do saldo todo ano no mês do seu aniversário. A alíquota varia de 5% (saldo até R$ 500) a 50% (saldo acima de R$ 20.001). Eu tenho R$ 50.554, posso sacar 50% = R$ 25.277. Se investir isso no Tesouro Selic, rendo 13,75% ao ano = R$ 3.476 líquidos. No FGTS, os mesmos R$ 25.277 renderiam R$ 645 líquidos. A diferença é absurda: R$ 2.831 por ano a mais no Tesouro Selic. Mas tem a multa. Se você for demitido sem justa causa, perde o direito de sacar o saldo integral. No saque-aniversário, a multa rescisória de 40% sobre o saldo do FGTS vai para você, mas o saldo principal continua lá. Eu fiz as contas: se for demitido com saldo de R$ 50.554, recebo a multa de R$ 20.222 + o saldo de R$ 50.554 = R$ 70.776. No saque-aniversário, recebo a multa de R$ 20.222 + já saquei R$ 25.277 durante o ano = R$ 45.499. O saldo remanescente no FGTS (R$ 25.277) fica travado. Então a rescisão sem saque-aniversário paga mais. A diferença é R$ 25.277. É um seguro contra demissão que custa caro. Minha decisão? Ativei o saque-aniversário e vou sacar anualmente para investir no Tesouro Selic. A perda potencial na rescisão dói, mas a perda real pela inflação dói mais. E é garantida. Com o saque-aniversário + investimento em Selic, compenso a inflação e ainda construo uma reserva de emergência de verdade. Sem contar que o saque-aniversário permite que eu use o dinheiro como quiser — inclusive como entrada para imóvel, se eu decidir comprar um dia.

Perguntas frequentes

Vale a pena ativar o saque-aniversário do FGTS?

Depende do seu perfil. Se sua estabilidade no emprego é alta, o saque-aniversário é vantajoso porque permite investir o dinheiro a taxas maiores. Se você trabalha em um setor com muitas demissões, o saque integral na rescisão pode ser mais seguro. Faça a simulação com nossos calculadores.

Quanto o FGTS rende por mês?

O FGTS rende 3% ao ano + TR, creditados no dia 1 de cada mês. Na prática, rende cerca de 0,25% ao mês bruto. Descontando IR de 15% sobre os rendimentos, fica em 0,21% ao mês líquido. A inflação mensal costuma ser maior que isso.

Posso usar o FGTS para comprar imóvel?

Sim. Você pode usar o FGTS para a entrada, abatimento de parcelas ou quitação do financiamento SFH. O imóvel precisa estar na mesma cidade onde você trabalha ou mora, ter valor de até R$ 1.500.000 e ser avaliado pelo banco.

O FGTS corrige pela inflação?

Não completamente. O FGTS rende 3% + TR, que quase nunca acompanha a inflação oficial (IPCA). Nos últimos 5 anos, o rendimento real do FGTS foi negativo em 4 dos 5 anos. É um fundo que perde poder de compra.

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