A Selic a 13,75% destruiu meu sonho de comprar casa

Como a taxa básica de juros do Brasil tornou o financiamento imobiliário inacessível para milhões de famílias — e o que eu aprendi tentando comprar meu primeiro apartamento

7 min de leitura
1480 palavras
01/04/2026
Eu jurava que 2023 seria o ano em que eu finalmente compraria meu apartamento. Tinha a entrada guardada, o FGTS acumulado em seis anos de CLT, e um salário que cabia na regra de comprometimento de 30%. Até que o Copom subiu a Selic para 13,75% e tudo desmoronou. A parcela do financiamento que antes cabia no bolso passou a comer metade do meu salário. Não sou economista, não trabalho em banco. Sou jornalista em São Paulo e passei meses tentando entender por que comprar casa no Brasil se tornou um privilégio. O que descobri me deixou revoltado — e quero compartilhar para que você não cometa os mesmos erros que eu.

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Vou contar minha saga. Em janeiro de 2023, encontrei um apartamento de dois quartos na Vila Mariana por R$ 420.000. Tinha R$ 80.000 guardados — 19% de entrada, quase os 20% que os bancos pedem. Fui ao Itaú, à Caixa e ao Santander fazer simulações. No Itaú, a taxa efetiva do financiamento em 30 anos ficou em 11,9% ao ano. Parece pouco perto dos 13,75% da Selic? Não parece quando você vê o número final. Um imóvel de R$ 420.000, financiado em 30 anos com 11,9% ao ano, vira R$ 1.180.000 no final. Eu pagaria quase três vezes o valor do apartamento. Na Caixa, usando FGTS + SFH, a taxa caiu para 9,5% com TR. Ainda assim, R$ 920.000 no total. A bolha é surreal. A pior parte é que ninguém te mostra isso na cara. O gerente do banco sorri e diz "a parcela cabe no seu orçamento". Sim, a parcela de R$ 3.200 cabe nos meus R$ 8.500 líquidos. Mas sobram R$ 5.300 para viver em São Paulo — aluguel atual, mercado, transporte, plano de saúde, condomínio do futuro apartamento. Não sobra nada. O Brasil é um dos poucos países do mundo onde o cidadão médio não consegue comprar a casa própria sem comprometer toda a renda por três décadas. Vamos aos números frios. A Selic em 13,75% significa que o dinheiro custa caro. Muito caro. Os bancos pegam emprestado a 13,75% e emprestam a você por mais 2 a 5 pontos percentuais. Resultado: taxa de financiamento entre 9% e 14% ao ano. Nos Estados Unidos, um mortgage de 30 anos custa 6,5% ao ano. No Japão, menos de 2%. No Brasil, você paga o dobro ou o triplo. Eu fiz uma planilha obsessiva. Simulei tudo: entrada de 20%, 30%, 40%. Prazo de 20, 25, 30 anos. Com e sem FGTS. A conclusão é brutal: com Selic acima de 10%, o financiamento imobiliário brasileiro é uma armadilha matemática. Quanto mais tempo você financia, mais juros compostos comem seu dinheiro. Financiar R$ 340.000 em 30 anos a 11% ao ano gera R$ 720.000 em juros. O apartamento precisa valorizar mais de 100% só para você empatar. E tem mais. O spread bancário no Brasil é um dos maiores do mundo. Enquanto a Selic estava em 13,75%, os bancos pagavam 12% na poupança e cobravam 30% no cartão de crédito. No financiamento imobiliário, o spread fica entre 3 e 6 pontos. Ou seja, o banco ganha rios de dinheiro no meio. Eu entendi isso quando comparei a taxa prefixada da Caixa com a TR + TTC. A TR (Taxa Referencial) é um resquício dos planos econômicos dos anos 90 que os bancos usam para embutir custo extra. Ninguém consegue explicar exatamente como a TR é calculada. É opaco de propósito. Minha vizinha Dona Maria, aposentada, me contou que comprou o apartamento dela em 2003 com Selic a 24,5%. Sim, era pior. Mas o imóvel custava R$ 65.000 e o salário mínimo era R$ 240. Hoje, o mesmo apartamento vale R$ 380.000 e o salário mínimo é R$ 1.302. O imóvel valorizou 484%. O salário mínimo, 441%. Quase acompanhou, certo? Errado. O financiamento dela era em 15 anos com taxa de 12%. O meu seria em 30 anos com taxa de 11%. O prazo dobrou, a taxa quase não caiu. A matemática mudou contra o comprador. Depois de meses de pesquisa, cheguei a uma decisão dolorosa: vou continuar alugando. Meu aluguel de R$ 2.200 em São Paulo parece caro, mas quando comparo com os R$ 3.200 da parcela + R$ 600 de condomínio + R$ 250 de IPTU, o aluguel é mais barato. Investindo a diferença de R$ 1.850 por mês na Selic (que rende 13,75% ao ano, líquido de 10,85%), consigo acumular R$ 470.000 em 15 anos. Com esse dinheiro, compro um apartamento à vista. Sem juros, sem banco, sem dor de cabeça. Claro, essa conta tem furos. O aluguel sobe. O imóvel valoriza. A Selic cai. Mas o princípio é sólido: quando o custo do dinheiro está alto demais, não faz sentido se endividar por 30 anos. O brasileiro médio foi condicionado a achar que aluguel é dinheiro jogado fora. Não é. Aluguel é moradia. Financiamento com juros de 11% é aluguel disfarçado com ilusão de propriedade. Se você está na mesma situação que eu estava, meu conselho é simples: faça as contas. De verdade. Pegue o valor total que você vai pagar ao banco e compare com o valor do imóvel. Se a diferença for maior que 80%, repense. Use nossa calculadora de financiamento imobiliário para simular todos os cenários. Não confie no gerente do banco. Confie na matemática.

Perguntas frequentes

Qual a relação entre a Selic e o financiamento imobiliário?

A Selic é a taxa básica de juros da economia. Quando ela sobe, o custo do dinheiro sobe para todo mundo — inclusive para os bancos, que repassam esse custo para você no financiamento. Uma Selic de 13,75% significa taxas de financiamento entre 9% e 14% ao ano.

Vale a pena financiar imóvel com a Selic alta?

Depende da sua situação. Se a taxa do financiamento está acima de 10% ao ano e o prazo é superior a 25 anos, os juros compostos vão fazer você pagar mais do que o dobro do valor do imóvel. Em muitos casos, alugar e investir a diferença é matematicamente mais vantajoso.

O FGTS ajuda a reduzir o custo do financiamento?

Sim, mas com limitações. Você pode usar o FGTS para a entrada e para amortizar até 80% das parcelas anuais. Isso reduz o saldo devedor e os juros. Porém, o FGTS rende apenas 3% ao ano + TR, que quase sempre perde da inflação. É um dinheiro que está perdendo poder de compra enquanto espera.

A Selic vai cair e baratear o financiamento?

O mercado espera quedas graduais, mas o ritmo é incerto. Mesmo que caia para 10%, as taxas de financiamento demoram a acompanhar — os bancos repassam quedas lentamente e repassam altas rapidamente. Não compre apostando na queda da Selic.

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